terça-feira, 25 de março de 2014

Crônica - Uma jovem ranzinza


(Imagem do Google)

Ela já estava acostumada com a vida. Assim, do jeito que sempre foi. Sem muitas surpresas, sem muitas mudanças. A monotonia era quase sua irmã, caminhavam juntas. Apesar da constância, Marcela era uma jovem mulher. Mais jovem do que mulher, porém mais mulher do que jovem, quando se tratava do seu temperamento.

Seu dia-a-dia era um profundo ritual. Acordava às 6:20h, nunca às 6:30h. Seu café da manhã era uma barra de cereal. Corria para pegar o ônibus – que sempre reclamava nunca parar no ponto. Marcela era gerente de uma loja de roupas, sempre séria, sempre na sua. Todo dia a mesma coisa, a mesma coisa todo dia. E assim ela ia vivendo. Sem nenhuma esperança e com muitas certezas.

Numa bela noite, depois de mais um dia de trabalho, Marcela voltava para casa naquele mesmo ônibus capenga e com o mesmo motorista que lhe dava boa noite todos os dias, sem obter resposta. “Que Inconveniente” – Pensava ela. Como sempre descia no ponto final, já estava acostumada a ficar sozinha com o motorista tão simpático – pena que ela era rabugenta demais para perceber isso.

Já faziam 2h que estava dentro do ônibus e o catastrófico trânsito de todos os dias não ajudava em nada. Marcela estava sentada no banco na frente da roleta, perto do motorista – era o espaço que menos se parecia com uma lata de sardinha. Nossa jovem ranzinza mal se preocupava em reparar naquele que conduzia o ônibus. Era tão jovem quanto Marcela e tão bonito quanto ela. Mas era “quadrada” demais para enxergar além daquilo que queria ver.

Na tentativa de mais uma vez travar qualquer tipo de diálogo com a moça, o motorista fala:
- “Você não lembra mesmo de mim não é Marcela?”

Assustada, balança a cabeça fazendo sinal de negação.
- “Sou o Pedro, da época da escola. Seu primeiro namorado...”

Marcela arregalou os olhos, mas não disse nada, de tanto espanto que sentia. Já chegava ao seu destino final, só os dois, como sempre no ônibus. Porém, tinha algo diferente. Marcela desceu e Pedro veio logo atrás. Os olhares se cruzaram, suas mãos estavam mais geladas do que um frigobar. Depois de alguns momentos em silêncio enfim, a mocinha arriscou algumas palavras. Perguntou-lhe o porquê de sempre falar com ela, mesmo sabendo que nunca teria uma resposta se quer. Prontamente o jovem motorista respondeu:

- “No tempo do colégio uma professora nos ensinou que nossas atitudes não devem depender do comportamento do próximo. Minha maneira de trabalhar é sendo educado com os meus passageiros, independente de quem for. ”

Depois dessa doce e constrangedora resposta, Pedro – o inconveniente o motorista – aproxima-se de Marcela e a abraça. Agora não são apenas suas mãos que congelam, mas sim todo seu corpo. Quebrando todos os protocolos, todos os rituais e toda monotonia na qual levava sua vida, ela retribui o abraço. Com as bochechas coradas e um sorriso de lado, percebe-se que existe algum sinal de vida dentro daquele corpo que antes, gelava.

Por: Carol Cunha

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